Tuesday, April 9, 2024

Extrato de infinitas desculpas

oh opia

seus olhos me chamam longe

pra dentro de você

você diz longe demais

nao posso ficar


oh opia

nao posso ficar

te trago estrelas de aniversário

com todas as miragens

que eu vejo em você


oh opia

vem comigo passear

de mãos dadas

mas é longe demais

te vejo e você não me vê


oh opia

fui levado para longe

você me vê e eu não te olho

feliz pra cachorro

perdi-me num delírio


oh opia

você chora quando eu rio

mas não é de você

por isso você chora

eu não vejo mais


oh opia

te vejo de olhos fechados

sorrindo à noite

mas não é você sou eu

acordo sem te ver


oh opia

me olho e te vejo

em ecos e fantasmas

de um lugar que só conhecemos

com móveis imaginários


oh opia

te olho e você não me olha

não sei quem é mais

a miragem de que agora vive

e o fantasma sou eu


oh opia

eu nunca te conheci

nem mesmo te beijei

oh opia

mas como eu te olhei

Tuesday, September 14, 2021

Papel

 Ó, papel

Tu és o altar para o qual me volto periodicamente

Tu és o meu confessionário

Tu és meu pai e minha mãe

E também meus filhos


Tu és meu espelho infiel

Meu açoite

Meu acalanto

E minha jangada


Quisera foste espada

Ou então

Namorada


Wednesday, January 15, 2020

Tabacaria de Atenas

Não sei nada
Nunca saberei nada
Nao posso querer saber nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo

Sei que estou doente, mas não vou no médico por raiva
Não raiva da medicina, que respeito muito, mas raiva de mim mesmo
Como uma superstição que não entendo
Só sei que não vou no médico

Sinto no meu cachimbo a libertação de todos os meus pensamentos
Enquanto a polícia me permitir continuarei fumando
Aqui deitado na calçada
Só peço que não me bloqueiem a lua
Sai da minha frente, Alexandre!

Já me chamaram de cão, de cínico, de louco
Querem me botar numa clínica
Onde inclinar-se-ão sobre mim esses respeitáveis doutores
Virgens vestidos de branco
Adoradores de falsos ídolos
Adoradores dos fatos
Sou um adorador é do meu falo
Perguntam-me o que há de errado comigo
E não falo nada

Monday, November 18, 2019

Brasil 2019

Acordar pensando amor
Sair, caminhar, ler jornal
Deitar pensando morte
Sonho fantasma
Acordar pensando amor

Monday, June 17, 2019

Av. Amazonas

Distraído na rua
No caminho de casa
Ouvi um doce canto
Que àlma deu asa
Girei redemoinho
Radar de espinhos
Nos nervos arrepio
Quando ouvi seu 'ssovio.

Entre nós, a Avenida Amazonas
Um rio caudaloso, artéria jorrando.

Na outra margem vi você
Na ponta oposta da ponte
No meio dos lentos, sambando
Com seu fone alto e MPB
Sumindo no horizonte.

Na calçada, espero Moisés, seu milagroso semáforo
Dividem-se as águas, e atravesso na faixa.
Mas o santo era falso e o sinal apressado
Fluíram minhas águas, vazaram-me os carros
Na rua, a mancha da minha comoção
A poça de gente ao meu redor
Um sutil descompasso
Como cálculo empedrado,
Erro por distração
O coração da cidade
Sequer sente o tranco
Na margem da calçada
Lê-se numa placa:
"Pedestre! Observe o sinal de travessia."

Num helicóptero, meu corpo vai boiando
Sobre as ruas da cidade, voando
Até um porto, ou ponto, ou posto
Ou baço, cemitério a todos amores.
Antes me levasse a você
Quando na outra margem cantava
Seguindo seu curso
Na viu, não parou
Para ver a comoção
Não parou minhas ruas
Quando a avenida parou
Nessa Avenida Amazonas
Sereia sangüínea sumiu.

Thursday, May 23, 2019


Olho para uma foto minha e vejo quem eu fui e consigo dizer a mim mesmo - este era eu com dez anos de idade, depois eu fui morar na França, e fiz faculdade de direito, e agora cá estou eu com vinte e oito anos

Olho para o espelho e vejo o reflexo do meu rosto, entendo o jogo de imagem que reproduz para mim, ou em mim, a coisa sem contudo ser a coisa. A pessoa atrás do vidro não sou eu, sequer é coisa alguma, apenas uma ilusão que o vidro me devolveu

Agora atiro ao espelho uma pedra, que o atravessa de completo, permitindo-me ver atrás dele, a parede de azulejos do meu banheiro

Pego esta moldura vazia e saio de casa, os meus dedos pingando as gotas de dor do sangue que não sinto, para o relento do ar frio de um céu estrelado e faço de moldura telescópio para o firmamento. Vejo os astros, e compreendo o meu lugar material, o meu corpo, um objeto em um grande sistema de objetos  que chamamos de universo. E estou certo de que do meu corpo cessará o funcionamento, mas isso eu já não entendo

Agora tento imaginar o espaço negro entre os pontos brancos, a total ausência, tento pintar esse espaço na tela de onde se prendia o meu espelho. Como? Como produzir uma ausência de coisa toda pela presença da minha tinta? Como posso ver o vazio? Não, isso eu não entendo, isso não entendo. o vazio é o não ver. Não consigo entender como vejo o não ver, como a minha cegueira para o nada é justamente o que me permite vê-lo não o vendo, como o Nada é o limite intransponível, é o vidro inquebrável antirreflexo, é membrana de espessura infinita, atrás do nada só há mais nada

Sequer consigo continuar o meu raciocínio, ele atinge neste ponto sempre, impreterivelmente, fatalmente, um obstáculo, até a turba de associações se faz estanque. É a morte isso que eu não vejo vendo em negativo? Não, melhor não pensar nisso, é uma via sem saída, uma dissonância irresolvível na lírica deste poema; é uma falta, uma lacuna, um espaço vazio sem fim. Talvez se eu fosse imortal eu pudesse resolver esse paradoxo, se eu tivesse todo o tempo do mundo, eventualmente eu me tornaria mundo, e o espaço vazio tentaria me encher de sua substância, e quem sabe eu me tornasse completo, pleno do vácuo

Estou boiando num mar vazio, num mar invisível, de noite. Não vejo a água, sequer consigo distinguir onde a água encosta no ar. Talvez eu sequer esteja na água, talvez eu esteja no ar ou sequer. Talvez eu esteja caindo, mas não há vento a sacudir meus cabelos e por lágrimas nos meus olhos. Eu não sinto nada, apenas vejo as próprias imagens alucinatórias que produzo na minha mente e sei que elas não existem. Sinto estar em uma simulação mal feita de o que seria uma vida. O que eu vou escolher alucinar em seguida? Que parte de mim eu desejo encenar? Que mundo eu desejo vivenciar, que corpo incarnar?

Arte? Criação? Ouço os violinos de Beethoven cintilando no meu ouvido; mas é isso algo que importa? Beethoven certamente morreu muito infeliz, ele certamente morreu insatisfeito, ele sequer podia ouvir a música que ele criava - certo, talvez a música que ele criasse em sua cabeça fosse muito melhor do que a que ele ouviria saindo de uma orquestra real, mas mesmo assim ele viveu uma vida muito limitada. Vivemos todos vidas muito limitadas, e muito cheias de culpas, e arrependimentos, e ansiedade, e limitações, e frustrações. Somos tão insignificantes criaturas, somos tão efêmeros até para nós mesmos. A consciência da morte é algo final, ela ofusca qualquer possibilidade. Escrever um livro? Para quê? A imortalidade da biblioteca do Congresso is not immortality at all. De que me adianta a glória? Napoleão não respira, não goza, não teme em seus quadros, em seus panos esvoaçantes de tinta seca de séculos

Será que eu serei a criatura cercada de volumes e mais volumes de folhas de papel costuradas uma atrás da outra, em uma casa de tijolos desconexos que deve tomar forma na minha mente, em uma cadeia de significações? Será que eu viverei para o imaginário concebido por uma vã filosofia? Será que eu gastarei os meus suspiros lendo em voz baixa noites a dentro, procurando sabe-se lá que... Eu morrerei, certamente morrerei, o que eu quero fazer antes de morrer? Será que é o que eu quero os panos esvoaçantes, a poeira acumulando no meu rosto de tinta, minha máscara mortuária

Tuesday, May 14, 2019

Façam fila no Everest

Engarrafamento no trajeto até o pico do Evereste em 22 de maio de 2019 Foto: Reprodução/ @Nimsdai Projeto Possible / AFP

Senti uma pequena traição ao meu espírito quando vi a imensa fila de gente para chegar ao topo do Everest, e, logo em seguida, um extremo senso de justiça sendo feita quando vi que a mesma fila causou a morte de oito pessoas. Não, não acho que tanta gente deve ousar chegar ao topo do mundo, acho que este se reserva apenas a alguns seletos campeões, a apenas a alguns bravios cavalheiros, e mesmo estes devem padecer enormidades, e quase morrer. Queria que um ou dois por ano lá chegassem. E por quê? Por que essa minha vontade da extrema seletividade de uma proeza física, de uma conquista do topo do mundo por gente que eu nem conheço, aliás topo do mundo este que eu mesmo nunca conheceria, e cuja conquista não me afeta - só que afeta, afeta muito, metaforicamente atinge meu peito lá no fundo. Como pode se vulgarizar tanto? Como podem mortais alçarem ao Olimpo? Como podem haver tantos?

O simbolismo em volta do alpinismo é o de superar obstáculos, e ver tanta gente no mundo chegando ao ponto mais difícil, superar o mais alto ponto, é como se muita gente estivesse zerando a Terra, alcançando o ponto mais extremo desta realidade que habito, é como se de repente o mundo estivesse se tornado tão povoado que as pessoas estão escorrendo por suas bordas. É uma sensação de desespero, especialmente porque eu não estou escorrendo pelas bordas, eu não estou respirando o ar alucinante das alturas rarefeitas. Não, estou eu aqui, cotidiano, pedestre, na minha vida de burocracias - provas, créditos, capítulos, artigos, deadlines, currículos, reputações, prêmios, aspirações, antidepressivos e menstruações.

Resta-me apenas a schadenfreude de ver que a ousadia não sai impune, e isso me serve como uma consolação ao meu recalque, mas apenas enquanto eu não posso tentar eu mesmo morrer na fila do Everest.