Thursday, December 27, 2018

Pink smoke

When I think of love, there is a turmoil of persons in my head, people meshing into people, and the great de-personification e re-personification of feeling. What does that mean? When I say LOVE, a face comes to mind, and another face follows, and then on, in a parade of loved ones and de-loved ones. The great rose coloured theme, the symbol the encompasses this feeling, this parade, this collection of memory... that is abstraction. The thing in itself might just as well be a phenomenon of electro-chemical-neural activity that collects into emergent properties and make me think and feel what I feel, I, a collection of atoms bouncing to a rhythm, I, chunk of animate meat. But that is the question: to be or not to be, animation, anima, soul. I, you see, I am, and this am is alive, I am alive, apart from all other predicates of I, I am alive. And love, this flandering, this flawed, fleeting, floating thing is like mortar to the rocks and bones and atoms of this body, it is energy, it is feeling, and abstraction, and free association in a mirror and a parade of faces. A flash, a glimpse, a mist, a blurr. Like pink smoke, caramel smelling smoke.

Brooklyn Wheelan : ALPINE SYSTEM - B
Acrylic on stretched canvas. 112cm x 112cm (44.1” x 44.1”). 2018. Signed en verso.

Saturday, December 22, 2018

Tem uma ilha na praia

Tem uma baía e nela uma ilha
A baía tem prédios, colunas de prata
Em volta da ilha
Os prédios são cinza e prata também
As águas são verdes e a ilha também

Na praia tem um menino que não tinha ninguém
Olhava para o mar e para a ilha além
Pensava em nadar e em se divertir

O mar era longo mas não tinha problema
O menino nadava sempre sozinho pois não tinha ninguém

Virava-se para a ilha baixinha,
Dava as costas aos prédios cinza
Ele verdinho, olhando para si

Tem uma ilha na praia.

Tuesday, December 11, 2018

matéria bruta, um solilóquio para não ser lido

tudo começa com um página em branco, uma lapiseira e muita empolgação
escrevo a partir de um local, durante um tempo. Sou uma pessoa, mas levar isso tudo para a escrita seria tornar a coisa por demais pessoal, de forma que estaria escrevendo nada a não ser autobiografias, mas não é isso que eu quero aqui, quero escrever com certo grau de despersonalização, para que você leitor, possa ler e usar, e apreciar, e fruir como quiser, sem que necessite ver a minha pessoa nisso que está diante de você. Certo grau de despersonalização, contudo, pois sou uma pessoa e se escrevo deve ter algum motivo, algum sentido que eu vejo nisso para a minha pessoa.

Escrevo como o quê? escrevo como homem? escrever como homem significa escrever para homens? o fato da minha masculinidade, não a minha renda, a minha cor, o meu curso universitário, ter aparecido antes é significativo, deve ser. É algo a ser retirado, ou algo a ser deixado? E se é pra ser retirado, sequer é possível? se sim, como?

Mas não, não é da minha masculinidade que eu quero falar, não diretamente, mas há certo aspectos do que eu vou escrever que, apesar de eu acreditar e desejar, podem ser lidos por mulheres, não poderiam ser escritos por uma mulher. Isso é apenas uma constatação da mera existência da questão do gênero e que é provavelmente a mais profunda variável em jogo na nossa sociedade, mas importante que cor, religião, renda, ou o que diga. Gênero, não sexo, é a variável mais importante quando se vem a entender quem uma pessoa é.

Mas também não é de gênero que eu quero falar, se bem que gênero com certeza envolverá, permeará os assuntos que eu tratarei. Paternidade, memória, existência, guerra, pacifismo, música, arte, filosofia, importância das humanidades, educação, inteligência coletiva, pensamentos, expressão, emoções, amor, luto, crime, vingança, injustiças e justiça, imortalidade e enfim a morte. A imortalidade logo antes da morte, curioso o meu jogo de palavras... Ah, não disse? Estou escrevendo sem backspace, estou escrevendo sem corrigir a não ser a minha ortografia. Penso que assim me aproximo de uma certa ingenuidade, autenticidade, como os beatniks que a minha professora de literatura exaltou, e em que eu devo ter visto algum valor por ver nisso algum tipo de valor. Ooops. Espero não te irritar muito, imagino que deve ser irritante ler o que uma pessoa saiu escrevendo sem ou com pouco critério..

Sim, há valor em editar um texto, e isso é algo que eu estou já descobrindo na prática. Há uma grande quantidade de fazer metalinguístico, de pensar que está escrevendo enquanto se escreve, contudo eu pessoalmente tendo a me irritar com autores que o fazem por demasiado, a não ser que o façam explicitamente como recurso expressivo, como é o caso do Machado de Assis. Ah, como eu adoro Machado! Eu devia fazer uma resenha sobre ele, enquanto eu escrevo algo próprio. Aí entro também no problema de fazer várias coisas ao mesmo tempo, de ler enquanto escrevo e de ler várias coisas ao mesmo tempo que no fndo é o problema geral da organização que é uma coisa em quê eu nunca fui muito bom (inclusive agora que estou pensando nisso, eu queria muito refletir sobre a minha TDAH, mas tenho preguiça disso... ) A sim, a preguiça como um fator importante no desenvolvimento de algoritmos, isto é de como planejamos em realizar uma tarefa, da forma mais preguiçosa significa a forma mais eficiente possível.

Organização, começo a pensar em aspectos práticos da minha vida, estes certamente não podem entrar no que eu vou escrever. Um aspecto prático importantíssimo é ler o que eu já escrevi. Sim! Editar, enriquecer, concentrar as coisas boas que eu já produzi e levar ao templo da crítica, ao altar do leitor. Minha oferenda, minha edição minha última edição que no fundo sou o eu que escrever,

Escrever é em grande parte descobrir a si mesmo em uma conversa interna, uma conversa com o espelho, uma reflexão. Se um dia eu publicar um livro de ensaios vou chamar "reflexões", bem genérico, como Montaigne chamou "ensaios" e Lacan chamou "escritos"... Sim, pessoas me inspiram, e a inspiração significa identificar o que é bom, o motivo do porque é bom e tentar realizar algo que tenha algo de bom pelo mesmo motivo, não necessariamente da mesma forma, porque aí é plágio. pronto, defini o plágio! Olha que geninho que eu sou.

Quem são os meus leitores... Não, eu ia escrever escritores. Quem são meus escritores favoritos? Mas antes disso, vamos tratar do lapso - quem são meus leitores favoritos? Meus leitores favoritos são a Vic, o meu tio, minhas primas, meus mestres, pessoas que eu admiro ou que me admiram. Especialmente são pessoas de mútua admiração. "Mútua admiração", olha que coisa mais bela, mais rica! Imagina só se Nietzsche me admirasse! E imagino que admiraria se me conhecesse! "Quanta autoestima, Temer!" você poderia pensar... mas não, acho saudável sim lidar com certo nível de bom-grado comigo mesmo, uma aposta num eu que tem certas qualidades inerentes, sem contudo ficar convencido ao ponto de não precisar mostrar o porquê das minhas qualidades, de não precisar produzir, de não produzir fenômenos para além de um nômeno no qual só eu acredito, e no qual alguns acreditam com menos motivo do que eu tenho para acreditar... em mim mesmo.

Sinto que estou escrevendo como o cara do notas do subsolo escrevia - ah! que agonia ler aquilo. Um solilóquio mesmo. A literatura tem pouco espaço para solilóquios, é difícil alguém escrever solilóquios explícitos... Ah, escolha um tema! Mas o que isso sequer significa, meu caro? Escolha um assunto, um conteúdo. Meu bem, je suis le conteúdo, o assunto sou eu. Este texto vem de mim, ele é a minha substância, que é tão gigantesca, que não cabe no texto. Não, não escolherei um assunto, um tema, mas um filé mignon do meu eu, um recorte, um corte, à la açougue. Pego agora a minha lapiseira e risco na minha pele um pontilhado que despejarei aqui! Vamos a ele.

Nasci em São Paulo. Opa, de novo, não "nasci em 2018"... op, mas nasci em 1996!
Lapsos, lapsos
Não "nasci em 1996, em São Paulo", mas "Nasci em São Paulo, em 1996" - e quando escrevo em meus diários, escrevo "São Paulo, [data]". Primeiro o espaço, depois o tempo. Logo, é mais importante o espaço em que se está do que o tempo em que se está. Ora, as coisas variam muito mais de quilômetro a quilômetro do que de século em século! Mudam muito através do tempo, mas como muito mais mudam através do espaço! Logo, sou de São Paulo, sou paulistano sim senhor, em meu peito lê-se NON DVCOR DVCO, o lema de minha terra natal. "Não sou conduzido, conduzo". Oras, singelo, não é mesmo? Sim, mas nunca me elogiaram por minha humildade, de qualquer forma.

Não é de humildade que eu careço, é de lerdeza. [CENSURADO]. Não é arrogância, se bem que pode ser se alguma pessoa mais obtusa se debruçar sobre este compêndio, mas vontade de excelência o que me move. Vontade de excelência é o que me levou à filosofia, à medicina, à Universidade de São Paulo. Ah, sim, aí sim isso é um tema que eu gostaria de tratar, o meu fanatismo pela Universidade, e como acho que as soluções para o mundo sairão das universidades. A minha crença, a minha fé no saber humano é um dos meus valores mais caros. Eu acredito fortemente no poder transformador do indivíduo sentar para ler um livro e transformar-se à sua vontade. Sim, eu tenho uma grande fé no conhecimento, na intelectualidade, no esforço. Não, não sou um demagogo partidário das idéias simplistas da meritocracia que falam que "tudo se resolve com esforço". Não, tudo se resolve com dinheiro, e tem gente que não tem, e não só não tem, como não tem como conseguir. Isso pra mim é o pior de tudo, a falta de condições, de oportunidades para a pessoa se issar do buraco em que ela se encontra. [CENSURADO] quero dêem condições para o que a nossa elite [CENSURADO] chama de vagabundos, para que pelo menos sentar na frente de um livro eles possam, com tempo, para ler entender e ler muitos livros até que possa atingir a maioridade intelectual, a condutância do si mesmo, que é o que esta cidade tanto grita, não é mesmo? Talvez algo que falta à esta cidade é oportunidade para os que querem fazer acontecer.

Máquina de moer gente esta cidade, todas as oportunidades são agarradas por alguém, e há quem diga que agarrar uma oportunidade é algo que poucos fazem... duvido, duvido muito, o que já vi de gente esforçada nesse Brasil enche um país inteiro. O sertaneja é antes de tudo um forte; ora, digo que o brasileiro é antes de tudo um forte. Infelizmente também é, logo em seguida, um ignorante. Ah, vivo numa terra de analfabetos, analfabetos funcionais, analfabetos políticos, analfabetos filosóficos... A filosofia é um nível de alfabetização sim, não tejam enganados não.

Voracidade, a pessoa que se dispõe a escrever alguma coisa tem que ler muito. Gente, eu leio tanto que eu nem lembro do que leio! Isso é um problema? Acho que sim, mas quando vou ver, eu aprendi muitas coisas de um tempo para o outro, mas não sei de onde elas vieram! Devem ter vindo de algum daqueles livros qu eu folheei desesperadamente. Há um certo desespero em ler, para mim, eu leio com desespero de ler, de virar uma página, de ver as páginas se somando numa grossura maior e maior na esquerda do livro, e ver a montanha de páginas á direita diminuindo, sinal de que eu estou andando, como quando fico esperando a coisa esquentar na frente do microondas me dá certo desespero "meu deus essa coisa não vai acabar nunca?" E quando escrevo então! Começo um dia´rio na primeira folha e vou escrevendo, rabiscando, verborragias com uma certa urgência de acabar! E os calendários então! Aaaah quero que passe logo o tempo, a minha faculdade, a minha residência, quero viver a minha vida... quero morrer. O meu desespero por acabar, o meu desespero por conclusões... é uma vontade de morrer, é uma todestrieb, é uma death drive. Como eu quero o alívio das tensões que me habitam, é uma catarse escrever e sentir as coisas escorrendo lentamente mas pelos meus dedos, não na velocidade que eu queria, mas indo, olha só como este texto já está ficando grande. Se quero morrer, sim quero morrer, querer morrer para mim é a mesma coisa que querer viver, como um artista desespera para acabar sua obra, eu, artista da minha vida que é a minha obra, minha única coisa que é essencialmente minha, nem o que eu escrevo sou eu, o que eu escrevo eu apenas fui, imediatamente antes de passar as palavra para o papel - a minha vida é a minha obra somada, é a minha conclusão, a única conclusão é morrer, e a ciência de que vou morrer me desespera, me deixa voraz, guloso, quero transar, foder, comer, deglutir, esgarçar, quero arrebentar as possibilidades de um mundo que se estende vasto diante de mim, mas ao mesmo tempo muito bem finito, alcançável, está ao alcance destas minhas mãos masculinas, brancas, privilegiadas - o que hei de fazer om tanto poder? como farei jus ao meu privilégio? como prestarei contas sobre o que fiz de minha riqueza, de minha vida, do ar dos meus pulmões que eu consumi e tirei de alguém para consumir! Achas que não? Ora, escrevendo! Escrever é prestar contas de uma alma, sob certa ótica.

Não somente. Se fosse assim, para quê publicar? Deixa tudo num grande baú de papel como fez Fernando Pessoa. Oras, mas não conhecemos do Fernando Pessoa o que estava no barril - eu escrevi barril duas vezes e corrigi por baú apenas na primeira, será que foi um lapso? será que é um lapso que eu estou pensando em barril de alguma coisa consumível, como vinho, como cerveja? alguma droga que os leitores beberão de mim e serei algo incorporado à essência deles. "Tal pensador "bebe" de tal ideia; "nem só de pão vive o homem, mas d'A Palavra"... Idéias são nourishment?
Enfim, é preciso escrever para um público, para uma externalidade, é preciso fazer parte de uma certa atividade dada socialmente, como um grande campo de pessoas falando e pessoas ouvindo... Imagino o inferno como algo assim, imagino o inferno como pessoas ouvindo tudo o que eu tenho para dizer e eu não podendo me impedir de dizê-las. A, sempre há o outro no meu inferno, e eu tenho muitos infernos. Sim, tenho, para mim o paraíso tem a densidade populacional da antártica. E o clima também. Chega, já começo a suar.

Monday, November 12, 2018

Doido nem nada

tábula rasa, papel em branco
alma vazia, que persegue
alma vazia, que angustia
que afina ao som da madrugada seu canto, sua nota, seu temor, seu pesar
alma vazia tábula rasa

piscina rasa, de águas rasas, água régia
corrosiva, penetrante, transparente,
poderosa, abrasiva, como fogo queimando a pele
dissolvendo o ouro, transmutando elementos
a substância da tábula rasa é qual?

dourado, branco, puro

que é o meu espírito animal?
qual é a criatura que habita a minha caverna? como me vejo em meu modo selvagem?
se jogar-me em um caldeirão de água régia - como obelix, como coringa, como aquiles, como hércules
um caldeirão de água régia como meu rio stix
como emergerei? deus ou esqueleto? são diversos?
abstração, retirar o que não é essencial
é isso, lavar o contingente pra fora

only when we have lost everything can we focus in what we can't lose

desespero cria prioridades, desespero põe as prioridades no lugar
pirâmide de maslow
ó! mas não posso cantar na madrugada quando estiver morrendo de fome?
azul, negro, cinza, tôrpe

decadente, mulambento, morador de rua, crackudo
já vi essas condições, temo sentir um dia na pele
temo me tornar um morador de prisão, de porão, de ditadura
o pau de arara será a minha cruz
mas quem será o mártir? em mim
que por causa de que causa eu vou morrer?

a minha fome não passa, meu esqueleto grita por baixo da minha pele que se estica sobre ele em um corpo que emagrece
meu esquelto tem um só nome
humano
sou eu homo sapiens, mas é essa minha natureza? minha contingência ou minha necessidade? existência ou essência
resposta: necessidade e existência, o resto é poesia

médico, jaleco branco, minha segunda pele, como uma calcinha transparente
[CENSURADO]
não, não levemos para aqui este poema, mas merda

cocô

arte, filosofia, ciência
veja, sublimei!
sublimação é a transmutação da merda em ouro
eis a sina de ser brasileiro
eis a sina de ser humano
sublimar coisas pútridas e podres em belo e sublime

nietzsche já dizia
que o cristianismo é apenas o vício travestido de virtude
humildade é falta de poder
perdão é impotência de vingança
amor ao próximo é pastoreio de ovelhas que desejam ser lobos

o homem é o lobo do homem
quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser opressor
ora, mas libertação de quê? fácil criar consciência de classe, difícil é criar consciência da existência!
absurdo camusniano, quem vive nesses parâmetros?
todos! sem saber

fernando pessoa o poeta total
que fingia ser dor de verdade a dor que sentia de verdade
fingir a verdade, o simulacro
perdemos a noção de realidade quando a começamos a construir por representações
o passo que demos para criar inteligência foi a corda que botamos no pescoço para irmos mais alto
representação possibilita a complexidade de pensamento e ao mesmo tempo a insegurança metafísica
olho para uma colher e vejo a não-colher, a ine-xistência
o absurdo

mas o fernando pessoa dirá que não há segredo por baixo das coisas e isso é a coisa mais estranha de todas as coisas estranhas
e eu tenho tatuado no peito "la rose est sans pourquoi" o lema da contingência
poderia muito bem assim como é não ser
heidegger e a sua ontologia, me salve desse desespero!
ó, o ridículo de se virar para filósofos em tempos de desespero, é receita para o fracasso
melhor seria virar para o dogmatismo bíblico

o que é filosofia? é a eliminação paulatina e que almeja ser mais e mais total dos dogmas
até o osso, até o esqueleto
filosofia é a água régia é que me deito e me corrôo por dentro
que descartes fez o mesmo
é a eliminação do falso, é a escolha da roupa que vou usar

o alpinismo
procurar as alturas
como sísifo
mas sem empurrar uma rocha
vou leve, leve subo uma montanha até que o ar se torne tão leve quanto o nada
espaço, vazio, inesplorado, desconhecido
subir a montanha da filosofia é descer um alçapão dentro do eu
é um alpinista que é mergulhador
é um cântico no vácuo onde não há som
é uma luz na caverna onde não chega o sol
é uma faísca entre o nada e o lugar nenhum
e a luz de uma estrela distante que chega quando já explodiu a estrela
mas uma explosão que transforma o oxigênio em outro - quer dizer, em ouro
a merda em ouro

sozinho, você está se sentindo sozinho?
mas essas palavras não são suas leitor, se eu falei é porque ´meu
se você leu é porque é seu
sendo assim, é nosso
se é nosso, plural, coletivo
estamos juntos

você tenta me ver através de palavras num papel como através de uma porta fechada por uma fechadura
espiar pela fechadura, alice, espelho, imagem, eu
lacan
o estado do espelho é a tomada de consciência através da imagem especular
a dialética com o outro, e o desenvolvimento da linguagem que
restitue
a função de
sujeito

durma com essa, retome o poema depois

sim, restituição da função de sujeito pela linguagem depois do confronto com o outro e com a negação de uma imagem que engana
quemsou eu? não sou você!
mas veja como falo bonito
que falo bonito

falei isso mesmo que você pensou

...

mas o perigo da linguagem é aquele que eu estava falando
a representação
a metáfora é inescapável, é o fenômeno para aquém do nômeno
é a estrutura de pensamento da qual não podemos escapar
é o óculos que não podemos tirar
wake up, Neo

mas assim, tudo isso é muito distante de você, fique tranquilo, porque você se preocuparia com isso?
afinal de contas você acredita que real é aquilo que você vê e aquilo que você ouve...
você não é...
doido
nem nada
..
né?

Sweet Disposition - parte 1: a moment

Acordou às sete horas da manhã com seu despertador. Grogue e atordoado, Cravo sentou-se em sua cama no primeiro alarme de seu celular (geralmente senta-se apenas com o quinto). Foi passando de música em música até achar uma que combinasse com sua animação, afinal, aquele dia não era qualquer dia, era o dia em que encontraria Rosa. Finalmente achou uma música que combinou com seu estado de espírito, botou o volume no talo, e foi dançando até a cozinha preparar seu café ouvindo

Sweet Disposition: um esboço em sete partes. 

[Leitor, essa história surgiu de uma música que eu ouvi numa festa, cujo refrão de sete versos me cativou e eu soube que havia ali uma história; ei-la. Ouça, antes de continuar, a música "Sweet disposition" do Temper Trap, enquanto nosso protagonista prepara café. Quem sabe você mesmo não poderia preparar um café também?]
Parte 1: "a moment"

Cafeinado, ansioso e taquicárdico, Cravo foi dirigindo para o centro de sua cidade, descendo as colinas periféricas de seu bairro montanhoso, para onde cresceu o edema urbano, como uma pérola, em camadas cronológicas. Depois de muito tempo encontraria sua Rosa, no baixio do pequeno vale, o cascalho no meio da pérola.

De forma súbita partira numa longa viagem e agora regressava. “Que milagre é tudo isso. Se formos pensar no mundo de sete bilhões de pessoas como um sistema de sete bilhões de partículas, como é improvável que um par delas continue a interagir, continue a se encontrar no caos do mundo. Não, não, isso não acontece sem querer, precisamos escrever todas aquelas cartas, precisamos sincronizar nossos planos e precisamos ela pegar um trem e eu ir buscá-la. Precisamos de vontade, de esforço, energia mesmo”.

Desimpedido, acelerava seu carro por ruas vazias de um sábado de manhã, no rádio tocando “Ne me quitte pas”, Jacques Brel [ouça também, e as próximas], o ar das árvores de outono que começavam a perder as folhas já rubras como vento entrava pelas janelas abertas, ofendia seus olhos que se expremiam, alegrava seus cabelos que voavam. Vista de cima, a côncava cidadezinha outonal lembrava um cálice de vinho rosé. "Faz tanto tempo que não a vejo... Como será que está? Tanto tempo, aliás, que nem sei se a reconhecerei! Será que me reconhecerá? Tudo flui, tudo muda. Imagino se continuamos as mesmas pessoas que éramos antes, imagino se ainda existem as pessoas que se despediram há tanto tempo. Se aqueles dois morreram? e esses dois são apenas estranhos… Do que falaremos quando nos encontrarmos? Nossa, estou me sentindo como se estivesse me dirigindo para um primeiro encontro!"[“Strangers in the Night”, Frank Sinatra].

Estacionou seu carro em frente à velha estação de trem. Aquele prédio que fora pintado mês passado, como era pintado todo ano, enganava, parecia novo. Era antiquíssimo, nele já aportaram milhões e milhões de passageiros nos últimos duzentos anos de trilho. Antes a vapor, hoje chegavam no tiro de um trem bala, as viagens mais curtas traziam ainda mais gente. Em épocas mais sombrias, voara pelos ares numa explosão de bomba. Hoje estava ali de volta, como uma fênix, idêntico ao anterior. Mas era o mesmo prédio, o mesmo, ninguém na cidade que o viu destruído e reconstruído negava isso, ninguém chamava de "estação nova", nada disso. Era a mesma. Cravo subiu os breves degraus bicentenários (que na verdade tinham cinco décadas) e foi nadando contra a correnteza, entrando na galeria principal, cujas tributárias eram as várias plataformas que desaguavam córregos de pessoas turbilhonando naquele grande rio, uma multidão de faces inexpressivas, sonadas com o cinza de um desespero silencioso. No meio do silêncio que é o ruído indistinguível de muita gente para pouco espaço, procurava seu raiozinho, seu holofote de gente. A menina que brilhava no escuro! ele a veria na distância que cruza a noite de uma baía, como um pontinho lá longe a ser confundido com a luz de um navio.

No canto do olho pegou um brilho. Virou-se e lá estava Rosa [“Do you go up”, Khai]. Ela se aproximou sorrindo, caminhando aceleradamente, chegou quase correndo a seus braços, jogando sua malinha a seus pés e seu corpo a seu corpo. Com a tensão de um raio que rasga o ar, os quatro braços abraçaram os dois corpos como um nó cirúrgico, para nunca mais soltar. Silêncio, absoluto silêncio que só olhos fechados trazem. Os braços de Cravo ao redor do corpo de Rosa reconheceram os ângulos e as texturas, seu nariz reconheceu o mesmo perfume de sempre. Apertava-a com o desespero de quem quer, com a força dos braços, preservar o momento, garantir que ficará gravado a fogo em sua memória [“Enjoy the Silence”, Depeche Mode]. “Ah, sim! Disso eu lembro, desse corpo em meus braços, é tudo que queria e tudo que precisava! Cachos que fazem cócegas no meu pescoço, desse cheiro intoxicante de quem usa perfume demais. E se me lembro, continuo a ser o mesmo que era? Quem sou eu? Eu sou qualquer coisa que permanece, no meio das minhas mudanças algo que continua a achar encanto nessa pessoa que passa os dedinhos pelas minhas costas. E se encontro permanência neste retorno, deve haver uma continuidade, durante o tempo de ausência permanecemos existindo, assim como continuou existindo a estação em forma de entulho no pós-guerra e depois reconstruída. Sim, quem foi agora volta inteira e um pouco maior.” Lágrimas verteram.

- AAAAA - gritaram juntos, como a enxurrada que transborda por todos os lugares possíveis, até a voz. - AAAAAAA.

- Esse é um momento proustiano. Sinto, enquanto ele ainda dura, como um daqueles momentos de que tenho certeza que vou lembrar para sempre e ter nostalgia.

- Exatamente! - disse rindo - É bem um desses que a gente sabe que não vai esquecer. Tanto que quero até tirar uma foto, apesar de achar que fotos são para quem não tem boa memória, que devíamos focar no momento para lembrá-lo ao invés da distração de tirar uma foto… Mas como eu sei, tenho certeza que não vou me esquecer de agora, acho que posso me dar o luxo de me distrair. - e tiraram a foto.

- “That’s why, darling, it’s incredible

How someone so unforgettable

Thinks that I am unforgettable too” - [“Unforgettable”, Nat King Cole], agora era a vez dela de chorar.

- Sabe, eu vim no trem marcando as horas, quando chegou a faltar noventa minutos eu pensei “meu deus, falta menos do que um filme para eu chegar, para ver Cravo”. A pontualidade destes trens é impiedosa, eu sabia que estaria aqui em noventa minutos e passei noventa minutos nervosa, não achava sequer uma posição confortável na poltrona. Era felicidade por antecipação.

- Sei bem. Eu mal dormi hoje. - “Sim, por enquanto vencemos o caos do mundo, por enquanto estamos os dois aqui, por enquanto sou quem eu sou, entre o que esqueço e o que luto para lembrar - como a luta que se dá entre sedimentação e erosão; depois de muito tempo nasce uma rocha metamórfica, a identidade.” Cravo contemplava naquele momento, abraçado a Rosa, a paisagem de vários outros momentos confluentes, passados, e sentia um imenso alívio em ser esmagado de novo por aqueles braços familiares. O neuro-órgão de fazer memórias dele selecionava esses momentos de forma temática, é claro, momentos passados conversando com o momento presente, à semelhança da forma com que um curador escolhe quadros para montar uma exposição em seu museu, fazendo-os conversar, quadros e memórias, arte e vida. [“Supercut”, Lorde]

Ah, mas o tempo, o tempo não pára. Um dia vai acabar o Cravo e a Rosa, e a estação, e os trens e a humanidade. Mas enquanto não chega nosso tempo, continuamos nos amando, infinitamente dentro de sua duração.

[Roll credits: “What I Did for Love”, versão com Priscilla Lopez]