Na infância, é comum brincar de “faz de conta”, ativa
e coletivamente criar uma situação inusitada com a imaginação. Apesar de
aparentemente se observar um decréscimo das fantasias à medida que crescemos,
jamais deixamos de depender de uma imagem da realidade formada a partir da
experiência. Jamais em contato com o mundo “em si”, mas o experimentando
sensorialmente, nossa concepção da realidade é criada a partir de imagens
situacionais, que frequentemente são inexatas.
Na obra
“Noites Brancas” de Fiódor Dostoiévski, o protagonista se apresenta como um
sonhador, alguém que vive em seu próprio mundo imaginário. Por meio da
imaginação, o jovem vê em situações cotidianas aquilo o que deseja ver no
mundo. Assim, passeando pelas ruas de São Petersburgo, consegue ler a mente de
pedestres, apaixonar-se por ideais de mulheres e conversar com edifícios. O
conto ilustra como o indivíduo, em sua subjetividade, ao mesmo tempo cria e
interpreta o seu mundo ao interagir com imagens, não com os objetos em si.
Imaginamos
invariavelmente uma realidade mais agradável. Constantemente fazemos planos de
vida, sonhamos com sucessos e delícias. Artistas, ao elaborarem suas obras,
externalizam seus anseios e opiniões, representações imagéticas de um mundo
sonhado só por eles. Criar imagens sobre o que o cerca é uma necessidade do
homem, em sua interação com o ambiente e em sua construção pessoal. O
“sonhador” de Dostoiévski enunciou “involuntariamente acreditamos que em nossos
sonhos incorpóreos há qualquer coisa de vivo e de palpável”. Temos o profundo
desejo de que nossas imagens, ou sonhos, que temos sobre o mundo se
concretizem. A esse sentimento chamamos de “esperança”.
É
inevitável que nossa interação com o mundo seja predominantemente imagética.
Assim, ser humano é ser como um sonhador, que transita entre a fantasia e a
realidade, criando e interpretando seu mundo da maneira que melhor lhe agradar.