Monday, November 12, 2018

Doido nem nada

tábula rasa, papel em branco
alma vazia, que persegue
alma vazia, que angustia
que afina ao som da madrugada seu canto, sua nota, seu temor, seu pesar
alma vazia tábula rasa

piscina rasa, de águas rasas, água régia
corrosiva, penetrante, transparente,
poderosa, abrasiva, como fogo queimando a pele
dissolvendo o ouro, transmutando elementos
a substância da tábula rasa é qual?

dourado, branco, puro

que é o meu espírito animal?
qual é a criatura que habita a minha caverna? como me vejo em meu modo selvagem?
se jogar-me em um caldeirão de água régia - como obelix, como coringa, como aquiles, como hércules
um caldeirão de água régia como meu rio stix
como emergerei? deus ou esqueleto? são diversos?
abstração, retirar o que não é essencial
é isso, lavar o contingente pra fora

only when we have lost everything can we focus in what we can't lose

desespero cria prioridades, desespero põe as prioridades no lugar
pirâmide de maslow
ó! mas não posso cantar na madrugada quando estiver morrendo de fome?
azul, negro, cinza, tôrpe

decadente, mulambento, morador de rua, crackudo
já vi essas condições, temo sentir um dia na pele
temo me tornar um morador de prisão, de porão, de ditadura
o pau de arara será a minha cruz
mas quem será o mártir? em mim
que por causa de que causa eu vou morrer?

a minha fome não passa, meu esqueleto grita por baixo da minha pele que se estica sobre ele em um corpo que emagrece
meu esquelto tem um só nome
humano
sou eu homo sapiens, mas é essa minha natureza? minha contingência ou minha necessidade? existência ou essência
resposta: necessidade e existência, o resto é poesia

médico, jaleco branco, minha segunda pele, como uma calcinha transparente
[CENSURADO]
não, não levemos para aqui este poema, mas merda

cocô

arte, filosofia, ciência
veja, sublimei!
sublimação é a transmutação da merda em ouro
eis a sina de ser brasileiro
eis a sina de ser humano
sublimar coisas pútridas e podres em belo e sublime

nietzsche já dizia
que o cristianismo é apenas o vício travestido de virtude
humildade é falta de poder
perdão é impotência de vingança
amor ao próximo é pastoreio de ovelhas que desejam ser lobos

o homem é o lobo do homem
quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser opressor
ora, mas libertação de quê? fácil criar consciência de classe, difícil é criar consciência da existência!
absurdo camusniano, quem vive nesses parâmetros?
todos! sem saber

fernando pessoa o poeta total
que fingia ser dor de verdade a dor que sentia de verdade
fingir a verdade, o simulacro
perdemos a noção de realidade quando a começamos a construir por representações
o passo que demos para criar inteligência foi a corda que botamos no pescoço para irmos mais alto
representação possibilita a complexidade de pensamento e ao mesmo tempo a insegurança metafísica
olho para uma colher e vejo a não-colher, a ine-xistência
o absurdo

mas o fernando pessoa dirá que não há segredo por baixo das coisas e isso é a coisa mais estranha de todas as coisas estranhas
e eu tenho tatuado no peito "la rose est sans pourquoi" o lema da contingência
poderia muito bem assim como é não ser
heidegger e a sua ontologia, me salve desse desespero!
ó, o ridículo de se virar para filósofos em tempos de desespero, é receita para o fracasso
melhor seria virar para o dogmatismo bíblico

o que é filosofia? é a eliminação paulatina e que almeja ser mais e mais total dos dogmas
até o osso, até o esqueleto
filosofia é a água régia é que me deito e me corrôo por dentro
que descartes fez o mesmo
é a eliminação do falso, é a escolha da roupa que vou usar

o alpinismo
procurar as alturas
como sísifo
mas sem empurrar uma rocha
vou leve, leve subo uma montanha até que o ar se torne tão leve quanto o nada
espaço, vazio, inesplorado, desconhecido
subir a montanha da filosofia é descer um alçapão dentro do eu
é um alpinista que é mergulhador
é um cântico no vácuo onde não há som
é uma luz na caverna onde não chega o sol
é uma faísca entre o nada e o lugar nenhum
e a luz de uma estrela distante que chega quando já explodiu a estrela
mas uma explosão que transforma o oxigênio em outro - quer dizer, em ouro
a merda em ouro

sozinho, você está se sentindo sozinho?
mas essas palavras não são suas leitor, se eu falei é porque ´meu
se você leu é porque é seu
sendo assim, é nosso
se é nosso, plural, coletivo
estamos juntos

você tenta me ver através de palavras num papel como através de uma porta fechada por uma fechadura
espiar pela fechadura, alice, espelho, imagem, eu
lacan
o estado do espelho é a tomada de consciência através da imagem especular
a dialética com o outro, e o desenvolvimento da linguagem que
restitue
a função de
sujeito

durma com essa, retome o poema depois

sim, restituição da função de sujeito pela linguagem depois do confronto com o outro e com a negação de uma imagem que engana
quemsou eu? não sou você!
mas veja como falo bonito
que falo bonito

falei isso mesmo que você pensou

...

mas o perigo da linguagem é aquele que eu estava falando
a representação
a metáfora é inescapável, é o fenômeno para aquém do nômeno
é a estrutura de pensamento da qual não podemos escapar
é o óculos que não podemos tirar
wake up, Neo

mas assim, tudo isso é muito distante de você, fique tranquilo, porque você se preocuparia com isso?
afinal de contas você acredita que real é aquilo que você vê e aquilo que você ouve...
você não é...
doido
nem nada
..
né?

Sweet Disposition - parte 1: a moment

Acordou às sete horas da manhã com seu despertador. Grogue e atordoado, Cravo sentou-se em sua cama no primeiro alarme de seu celular (geralmente senta-se apenas com o quinto). Foi passando de música em música até achar uma que combinasse com sua animação, afinal, aquele dia não era qualquer dia, era o dia em que encontraria Rosa. Finalmente achou uma música que combinou com seu estado de espírito, botou o volume no talo, e foi dançando até a cozinha preparar seu café ouvindo

Sweet Disposition: um esboço em sete partes. 

[Leitor, essa história surgiu de uma música que eu ouvi numa festa, cujo refrão de sete versos me cativou e eu soube que havia ali uma história; ei-la. Ouça, antes de continuar, a música "Sweet disposition" do Temper Trap, enquanto nosso protagonista prepara café. Quem sabe você mesmo não poderia preparar um café também?]
Parte 1: "a moment"

Cafeinado, ansioso e taquicárdico, Cravo foi dirigindo para o centro de sua cidade, descendo as colinas periféricas de seu bairro montanhoso, para onde cresceu o edema urbano, como uma pérola, em camadas cronológicas. Depois de muito tempo encontraria sua Rosa, no baixio do pequeno vale, o cascalho no meio da pérola.

De forma súbita partira numa longa viagem e agora regressava. “Que milagre é tudo isso. Se formos pensar no mundo de sete bilhões de pessoas como um sistema de sete bilhões de partículas, como é improvável que um par delas continue a interagir, continue a se encontrar no caos do mundo. Não, não, isso não acontece sem querer, precisamos escrever todas aquelas cartas, precisamos sincronizar nossos planos e precisamos ela pegar um trem e eu ir buscá-la. Precisamos de vontade, de esforço, energia mesmo”.

Desimpedido, acelerava seu carro por ruas vazias de um sábado de manhã, no rádio tocando “Ne me quitte pas”, Jacques Brel [ouça também, e as próximas], o ar das árvores de outono que começavam a perder as folhas já rubras como vento entrava pelas janelas abertas, ofendia seus olhos que se expremiam, alegrava seus cabelos que voavam. Vista de cima, a côncava cidadezinha outonal lembrava um cálice de vinho rosé. "Faz tanto tempo que não a vejo... Como será que está? Tanto tempo, aliás, que nem sei se a reconhecerei! Será que me reconhecerá? Tudo flui, tudo muda. Imagino se continuamos as mesmas pessoas que éramos antes, imagino se ainda existem as pessoas que se despediram há tanto tempo. Se aqueles dois morreram? e esses dois são apenas estranhos… Do que falaremos quando nos encontrarmos? Nossa, estou me sentindo como se estivesse me dirigindo para um primeiro encontro!"[“Strangers in the Night”, Frank Sinatra].

Estacionou seu carro em frente à velha estação de trem. Aquele prédio que fora pintado mês passado, como era pintado todo ano, enganava, parecia novo. Era antiquíssimo, nele já aportaram milhões e milhões de passageiros nos últimos duzentos anos de trilho. Antes a vapor, hoje chegavam no tiro de um trem bala, as viagens mais curtas traziam ainda mais gente. Em épocas mais sombrias, voara pelos ares numa explosão de bomba. Hoje estava ali de volta, como uma fênix, idêntico ao anterior. Mas era o mesmo prédio, o mesmo, ninguém na cidade que o viu destruído e reconstruído negava isso, ninguém chamava de "estação nova", nada disso. Era a mesma. Cravo subiu os breves degraus bicentenários (que na verdade tinham cinco décadas) e foi nadando contra a correnteza, entrando na galeria principal, cujas tributárias eram as várias plataformas que desaguavam córregos de pessoas turbilhonando naquele grande rio, uma multidão de faces inexpressivas, sonadas com o cinza de um desespero silencioso. No meio do silêncio que é o ruído indistinguível de muita gente para pouco espaço, procurava seu raiozinho, seu holofote de gente. A menina que brilhava no escuro! ele a veria na distância que cruza a noite de uma baía, como um pontinho lá longe a ser confundido com a luz de um navio.

No canto do olho pegou um brilho. Virou-se e lá estava Rosa [“Do you go up”, Khai]. Ela se aproximou sorrindo, caminhando aceleradamente, chegou quase correndo a seus braços, jogando sua malinha a seus pés e seu corpo a seu corpo. Com a tensão de um raio que rasga o ar, os quatro braços abraçaram os dois corpos como um nó cirúrgico, para nunca mais soltar. Silêncio, absoluto silêncio que só olhos fechados trazem. Os braços de Cravo ao redor do corpo de Rosa reconheceram os ângulos e as texturas, seu nariz reconheceu o mesmo perfume de sempre. Apertava-a com o desespero de quem quer, com a força dos braços, preservar o momento, garantir que ficará gravado a fogo em sua memória [“Enjoy the Silence”, Depeche Mode]. “Ah, sim! Disso eu lembro, desse corpo em meus braços, é tudo que queria e tudo que precisava! Cachos que fazem cócegas no meu pescoço, desse cheiro intoxicante de quem usa perfume demais. E se me lembro, continuo a ser o mesmo que era? Quem sou eu? Eu sou qualquer coisa que permanece, no meio das minhas mudanças algo que continua a achar encanto nessa pessoa que passa os dedinhos pelas minhas costas. E se encontro permanência neste retorno, deve haver uma continuidade, durante o tempo de ausência permanecemos existindo, assim como continuou existindo a estação em forma de entulho no pós-guerra e depois reconstruída. Sim, quem foi agora volta inteira e um pouco maior.” Lágrimas verteram.

- AAAAA - gritaram juntos, como a enxurrada que transborda por todos os lugares possíveis, até a voz. - AAAAAAA.

- Esse é um momento proustiano. Sinto, enquanto ele ainda dura, como um daqueles momentos de que tenho certeza que vou lembrar para sempre e ter nostalgia.

- Exatamente! - disse rindo - É bem um desses que a gente sabe que não vai esquecer. Tanto que quero até tirar uma foto, apesar de achar que fotos são para quem não tem boa memória, que devíamos focar no momento para lembrá-lo ao invés da distração de tirar uma foto… Mas como eu sei, tenho certeza que não vou me esquecer de agora, acho que posso me dar o luxo de me distrair. - e tiraram a foto.

- “That’s why, darling, it’s incredible

How someone so unforgettable

Thinks that I am unforgettable too” - [“Unforgettable”, Nat King Cole], agora era a vez dela de chorar.

- Sabe, eu vim no trem marcando as horas, quando chegou a faltar noventa minutos eu pensei “meu deus, falta menos do que um filme para eu chegar, para ver Cravo”. A pontualidade destes trens é impiedosa, eu sabia que estaria aqui em noventa minutos e passei noventa minutos nervosa, não achava sequer uma posição confortável na poltrona. Era felicidade por antecipação.

- Sei bem. Eu mal dormi hoje. - “Sim, por enquanto vencemos o caos do mundo, por enquanto estamos os dois aqui, por enquanto sou quem eu sou, entre o que esqueço e o que luto para lembrar - como a luta que se dá entre sedimentação e erosão; depois de muito tempo nasce uma rocha metamórfica, a identidade.” Cravo contemplava naquele momento, abraçado a Rosa, a paisagem de vários outros momentos confluentes, passados, e sentia um imenso alívio em ser esmagado de novo por aqueles braços familiares. O neuro-órgão de fazer memórias dele selecionava esses momentos de forma temática, é claro, momentos passados conversando com o momento presente, à semelhança da forma com que um curador escolhe quadros para montar uma exposição em seu museu, fazendo-os conversar, quadros e memórias, arte e vida. [“Supercut”, Lorde]

Ah, mas o tempo, o tempo não pára. Um dia vai acabar o Cravo e a Rosa, e a estação, e os trens e a humanidade. Mas enquanto não chega nosso tempo, continuamos nos amando, infinitamente dentro de sua duração.

[Roll credits: “What I Did for Love”, versão com Priscilla Lopez]