Acordar pensando amor
Sair, caminhar, ler jornal
Deitar pensando morte
Sonho fantasma
Acordar pensando amor
Monday, November 18, 2019
Monday, June 17, 2019
Av. Amazonas
Distraído na rua
No caminho de casa
Ouvi um doce canto
Que àlma deu asa
Girei redemoinho
Radar de espinhos
Nos nervos arrepio
Quando ouvi seu 'ssovio.
Entre nós, a Avenida Amazonas
Um rio caudaloso, artéria jorrando.
Na outra margem vi você
Na ponta oposta da ponte
No meio dos lentos, sambando
Com seu fone alto e MPB
Sumindo no horizonte.
Na calçada, espero Moisés, seu milagroso semáforo
Dividem-se as águas, e atravesso na faixa.
Mas o santo era falso e o sinal apressado
Fluíram minhas águas, vazaram-me os carros
Na rua, a mancha da minha comoção
A poça de gente ao meu redor
Um sutil descompasso
Como cálculo empedrado,
Erro por distração
O coração da cidade
Sequer sente o tranco
Na margem da calçada
Lê-se numa placa:
"Pedestre! Observe o sinal de travessia."
Num helicóptero, meu corpo vai boiando
Sobre as ruas da cidade, voando
Até um porto, ou ponto, ou posto
Ou baço, cemitério a todos amores.
Antes me levasse a você
Quando na outra margem cantava
Seguindo seu curso
Na viu, não parou
Para ver a comoção
Não parou minhas ruas
Quando a avenida parou
Nessa Avenida Amazonas
Sereia sangüínea sumiu.
No caminho de casa
Ouvi um doce canto
Que àlma deu asa
Girei redemoinho
Radar de espinhos
Nos nervos arrepio
Quando ouvi seu 'ssovio.
Entre nós, a Avenida Amazonas
Um rio caudaloso, artéria jorrando.
Na outra margem vi você
Na ponta oposta da ponte
No meio dos lentos, sambando
Com seu fone alto e MPB
Sumindo no horizonte.
Na calçada, espero Moisés, seu milagroso semáforo
Dividem-se as águas, e atravesso na faixa.
Mas o santo era falso e o sinal apressado
Fluíram minhas águas, vazaram-me os carros
Na rua, a mancha da minha comoção
A poça de gente ao meu redor
Um sutil descompasso
Como cálculo empedrado,
Erro por distração
O coração da cidade
Sequer sente o tranco
Na margem da calçada
Lê-se numa placa:
"Pedestre! Observe o sinal de travessia."
Num helicóptero, meu corpo vai boiando
Sobre as ruas da cidade, voando
Até um porto, ou ponto, ou posto
Ou baço, cemitério a todos amores.
Antes me levasse a você
Quando na outra margem cantava
Seguindo seu curso
Na viu, não parou
Para ver a comoção
Não parou minhas ruas
Quando a avenida parou
Nessa Avenida Amazonas
Sereia sangüínea sumiu.
Thursday, May 23, 2019
Olho para uma foto minha e vejo quem eu fui e consigo dizer a mim mesmo - este era eu com dez anos de idade, depois eu fui morar na França, e fiz faculdade de direito, e agora cá estou eu com vinte e oito anos
Olho para o espelho e vejo o reflexo do meu rosto, entendo o jogo de imagem que reproduz para mim, ou em mim, a coisa sem contudo ser a coisa. A pessoa atrás do vidro não sou eu, sequer é coisa alguma, apenas uma ilusão que o vidro me devolveu
Agora atiro ao espelho uma pedra, que o atravessa de completo, permitindo-me ver atrás dele, a parede de azulejos do meu banheiro
Pego esta moldura vazia e saio de casa, os meus dedos pingando as gotas de dor do sangue que não sinto, para o relento do ar frio de um céu estrelado e faço de moldura telescópio para o firmamento. Vejo os astros, e compreendo o meu lugar material, o meu corpo, um objeto em um grande sistema de objetos que chamamos de universo. E estou certo de que do meu corpo cessará o funcionamento, mas isso eu já não entendo
Agora tento imaginar o espaço negro entre os pontos brancos, a total ausência, tento pintar esse espaço na tela de onde se prendia o meu espelho. Como? Como produzir uma ausência de coisa toda pela presença da minha tinta? Como posso ver o vazio? Não, isso eu não entendo, isso não entendo. o vazio é o não ver. Não consigo entender como vejo o não ver, como a minha cegueira para o nada é justamente o que me permite vê-lo não o vendo, como o Nada é o limite intransponível, é o vidro inquebrável antirreflexo, é membrana de espessura infinita, atrás do nada só há mais nada
Sequer consigo continuar o meu raciocínio, ele atinge neste ponto sempre, impreterivelmente, fatalmente, um obstáculo, até a turba de associações se faz estanque. É a morte isso que eu não vejo vendo em negativo? Não, melhor não pensar nisso, é uma via sem saída, uma dissonância irresolvível na lírica deste poema; é uma falta, uma lacuna, um espaço vazio sem fim. Talvez se eu fosse imortal eu pudesse resolver esse paradoxo, se eu tivesse todo o tempo do mundo, eventualmente eu me tornaria mundo, e o espaço vazio tentaria me encher de sua substância, e quem sabe eu me tornasse completo, pleno do vácuo
Estou boiando num mar vazio, num mar invisível, de noite. Não vejo a água, sequer consigo distinguir onde a água encosta no ar. Talvez eu sequer esteja na água, talvez eu esteja no ar ou sequer. Talvez eu esteja caindo, mas não há vento a sacudir meus cabelos e por lágrimas nos meus olhos. Eu não sinto nada, apenas vejo as próprias imagens alucinatórias que produzo na minha mente e sei que elas não existem. Sinto estar em uma simulação mal feita de o que seria uma vida. O que eu vou escolher alucinar em seguida? Que parte de mim eu desejo encenar? Que mundo eu desejo vivenciar, que corpo incarnar?
Arte? Criação? Ouço os violinos de Beethoven cintilando no meu ouvido; mas é isso algo que importa? Beethoven certamente morreu muito infeliz, ele certamente morreu insatisfeito, ele sequer podia ouvir a música que ele criava - certo, talvez a música que ele criasse em sua cabeça fosse muito melhor do que a que ele ouviria saindo de uma orquestra real, mas mesmo assim ele viveu uma vida muito limitada. Vivemos todos vidas muito limitadas, e muito cheias de culpas, e arrependimentos, e ansiedade, e limitações, e frustrações. Somos tão insignificantes criaturas, somos tão efêmeros até para nós mesmos. A consciência da morte é algo final, ela ofusca qualquer possibilidade. Escrever um livro? Para quê? A imortalidade da biblioteca do Congresso is not immortality at all. De que me adianta a glória? Napoleão não respira, não goza, não teme em seus quadros, em seus panos esvoaçantes de tinta seca de séculos
Será que eu serei a criatura cercada de volumes e mais volumes de folhas de papel costuradas uma atrás da outra, em uma casa de tijolos desconexos que deve tomar forma na minha mente, em uma cadeia de significações? Será que eu viverei para o imaginário concebido por uma vã filosofia? Será que eu gastarei os meus suspiros lendo em voz baixa noites a dentro, procurando sabe-se lá que... Eu morrerei, certamente morrerei, o que eu quero fazer antes de morrer? Será que é o que eu quero os panos esvoaçantes, a poeira acumulando no meu rosto de tinta, minha máscara mortuária
Tuesday, May 14, 2019
Façam fila no Everest
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| Engarrafamento no trajeto até o pico do Evereste em 22 de maio de 2019 Foto: Reprodução/ @Nimsdai Projeto Possible / AFP |
O simbolismo em volta do alpinismo é o de superar obstáculos, e ver tanta gente no mundo chegando ao ponto mais difícil, superar o mais alto ponto, é como se muita gente estivesse zerando a Terra, alcançando o ponto mais extremo desta realidade que habito, é como se de repente o mundo estivesse se tornado tão povoado que as pessoas estão escorrendo por suas bordas. É uma sensação de desespero, especialmente porque eu não estou escorrendo pelas bordas, eu não estou respirando o ar alucinante das alturas rarefeitas. Não, estou eu aqui, cotidiano, pedestre, na minha vida de burocracias - provas, créditos, capítulos, artigos, deadlines, currículos, reputações, prêmios, aspirações, antidepressivos e menstruações.
Resta-me apenas a schadenfreude de ver que a ousadia não sai impune, e isso me serve como uma consolação ao meu recalque, mas apenas enquanto eu não posso tentar eu mesmo morrer na fila do Everest.
Monday, April 1, 2019
Die Verneinung
Espelho, espelho meu,
Onde se esconde o eu?
Em que pedaço deste meu rosto?
Estaria eu no meu nariz?
Ou nos meus olhos?
Esconderia-me atrás de minha testa?
"Não, você não está aqui"
diz o espelho
"Você não é este que você vê
Eu sou este que você vê"
"E onde estás tu em mim, ó espelho?"
E o espelho como uma esfinge responde
Se procuras por mim
Achas apenas a ti.
Se procuras por ti
Achas apenas a mim.
Mas eu não sou tu.
Tu não és eu.
Ceci n'est pas toi
Que pensas que és tu?
Viu? De nada adianta falar com espelhos, ou melhor, devia falar comigo mesmo
Falar com o espelho fingindo que falo com outro
Mas o espelho nem é o outro
Nem é eu, mas algo no meio do caminho
Quando nele procuro o outro, ele é eu
Quando procuro nele a mim, ele é o outro
E nesse passo eu não acho nem a mim nem ao outro
Perdido, cego, tateando, errante
Nem sim nem não, nem ser nem não-ser
...?
Ora, mas é impossível achar o outro se é impossível conhecer o outro,
Pois ele será como o espelho do espelho
A imagem que eu consegui ver daquilo que ele conseguiu mostrar
Um pouco de mim nele, um pouco dele sempre faltando, aos pedaços, lost in translation
Que sei eu do que sou?
Poeta é que não sou.
Onde se esconde o eu?
Em que pedaço deste meu rosto?
Estaria eu no meu nariz?
Ou nos meus olhos?
Esconderia-me atrás de minha testa?
"Não, você não está aqui"
diz o espelho
"Você não é este que você vê
Eu sou este que você vê"
"E onde estás tu em mim, ó espelho?"
E o espelho como uma esfinge responde
Se procuras por mim
Achas apenas a ti.
Se procuras por ti
Achas apenas a mim.
Mas eu não sou tu.
Tu não és eu.
Ceci n'est pas toi
Que pensas que és tu?
Viu? De nada adianta falar com espelhos, ou melhor, devia falar comigo mesmo
Falar com o espelho fingindo que falo com outro
Mas o espelho nem é o outro
Nem é eu, mas algo no meio do caminho
Quando nele procuro o outro, ele é eu
Quando procuro nele a mim, ele é o outro
E nesse passo eu não acho nem a mim nem ao outro
Perdido, cego, tateando, errante
Nem sim nem não, nem ser nem não-ser
...?
Ora, mas é impossível achar o outro se é impossível conhecer o outro,
Pois ele será como o espelho do espelho
A imagem que eu consegui ver daquilo que ele conseguiu mostrar
Um pouco de mim nele, um pouco dele sempre faltando, aos pedaços, lost in translation
Que sei eu do que sou?
Poeta é que não sou.
Tuesday, February 19, 2019
criar e descobrir
Terra a vista
meu navio agora tem um ponto fixo
Aquele ponto verde no horizonte
Agora uma faixa verde
Agora uma parede verde
Agora umas montanhas verdes.
O casco encaixa na sua sombra na areia
Molho meus pés na água antes de mergulhar
Caminho na praia e olho para frente
A minha frente, o desconhecido.
Levo comigo apenas um facão
Vou sozinho, meus companheiros não podem me acompanhar
Eu não vejo o caminho por onde piso, apenas sei que é a aqui que devo colocar meu pé
É aqui que eu quero virar, à direita, ali à esquerda
Não por ali, mas por aqui
Siga em frente, para cima, para baixo, para dentro.
Para achar o quê?
Para não achar, mas para criar e então descobrir.
Sim, quem descobriu fui eu, mas só porque eu pude criar.
Atrás dessas montanhas há um espaço plano.
Ali, no meio de dois rios fundarei um colégio.
Ali, no meio de dois rios ensinarei as letras.
Ensinarei as letras a se porem na ordem certa.
Enfileirarem-se, em versos, em falanges.
Letras que avançam com falanges, ao toque de uma marcha.
Para cima, para baixo, para dentro.
Inventando além de onde eu vejo, tateando.
meu navio agora tem um ponto fixo
Aquele ponto verde no horizonte
Agora uma faixa verde
Agora uma parede verde
Agora umas montanhas verdes.
O casco encaixa na sua sombra na areia
Molho meus pés na água antes de mergulhar
Caminho na praia e olho para frente
A minha frente, o desconhecido.
Levo comigo apenas um facão
Vou sozinho, meus companheiros não podem me acompanhar
Eu não vejo o caminho por onde piso, apenas sei que é a aqui que devo colocar meu pé
É aqui que eu quero virar, à direita, ali à esquerda
Não por ali, mas por aqui
Siga em frente, para cima, para baixo, para dentro.
Para achar o quê?
Para não achar, mas para criar e então descobrir.
Sim, quem descobriu fui eu, mas só porque eu pude criar.
Atrás dessas montanhas há um espaço plano.
Ali, no meio de dois rios fundarei um colégio.
Ali, no meio de dois rios ensinarei as letras.
Ensinarei as letras a se porem na ordem certa.
Enfileirarem-se, em versos, em falanges.
Letras que avançam com falanges, ao toque de uma marcha.
Para cima, para baixo, para dentro.
Inventando além de onde eu vejo, tateando.
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