Tuesday, May 14, 2019

Façam fila no Everest

Engarrafamento no trajeto até o pico do Evereste em 22 de maio de 2019 Foto: Reprodução/ @Nimsdai Projeto Possible / AFP

Senti uma pequena traição ao meu espírito quando vi a imensa fila de gente para chegar ao topo do Everest, e, logo em seguida, um extremo senso de justiça sendo feita quando vi que a mesma fila causou a morte de oito pessoas. Não, não acho que tanta gente deve ousar chegar ao topo do mundo, acho que este se reserva apenas a alguns seletos campeões, a apenas a alguns bravios cavalheiros, e mesmo estes devem padecer enormidades, e quase morrer. Queria que um ou dois por ano lá chegassem. E por quê? Por que essa minha vontade da extrema seletividade de uma proeza física, de uma conquista do topo do mundo por gente que eu nem conheço, aliás topo do mundo este que eu mesmo nunca conheceria, e cuja conquista não me afeta - só que afeta, afeta muito, metaforicamente atinge meu peito lá no fundo. Como pode se vulgarizar tanto? Como podem mortais alçarem ao Olimpo? Como podem haver tantos?

O simbolismo em volta do alpinismo é o de superar obstáculos, e ver tanta gente no mundo chegando ao ponto mais difícil, superar o mais alto ponto, é como se muita gente estivesse zerando a Terra, alcançando o ponto mais extremo desta realidade que habito, é como se de repente o mundo estivesse se tornado tão povoado que as pessoas estão escorrendo por suas bordas. É uma sensação de desespero, especialmente porque eu não estou escorrendo pelas bordas, eu não estou respirando o ar alucinante das alturas rarefeitas. Não, estou eu aqui, cotidiano, pedestre, na minha vida de burocracias - provas, créditos, capítulos, artigos, deadlines, currículos, reputações, prêmios, aspirações, antidepressivos e menstruações.

Resta-me apenas a schadenfreude de ver que a ousadia não sai impune, e isso me serve como uma consolação ao meu recalque, mas apenas enquanto eu não posso tentar eu mesmo morrer na fila do Everest.

No comments:

Post a Comment