Thursday, May 23, 2019


Olho para uma foto minha e vejo quem eu fui e consigo dizer a mim mesmo - este era eu com dez anos de idade, depois eu fui morar na França, e fiz faculdade de direito, e agora cá estou eu com vinte e oito anos

Olho para o espelho e vejo o reflexo do meu rosto, entendo o jogo de imagem que reproduz para mim, ou em mim, a coisa sem contudo ser a coisa. A pessoa atrás do vidro não sou eu, sequer é coisa alguma, apenas uma ilusão que o vidro me devolveu

Agora atiro ao espelho uma pedra, que o atravessa de completo, permitindo-me ver atrás dele, a parede de azulejos do meu banheiro

Pego esta moldura vazia e saio de casa, os meus dedos pingando as gotas de dor do sangue que não sinto, para o relento do ar frio de um céu estrelado e faço de moldura telescópio para o firmamento. Vejo os astros, e compreendo o meu lugar material, o meu corpo, um objeto em um grande sistema de objetos  que chamamos de universo. E estou certo de que do meu corpo cessará o funcionamento, mas isso eu já não entendo

Agora tento imaginar o espaço negro entre os pontos brancos, a total ausência, tento pintar esse espaço na tela de onde se prendia o meu espelho. Como? Como produzir uma ausência de coisa toda pela presença da minha tinta? Como posso ver o vazio? Não, isso eu não entendo, isso não entendo. o vazio é o não ver. Não consigo entender como vejo o não ver, como a minha cegueira para o nada é justamente o que me permite vê-lo não o vendo, como o Nada é o limite intransponível, é o vidro inquebrável antirreflexo, é membrana de espessura infinita, atrás do nada só há mais nada

Sequer consigo continuar o meu raciocínio, ele atinge neste ponto sempre, impreterivelmente, fatalmente, um obstáculo, até a turba de associações se faz estanque. É a morte isso que eu não vejo vendo em negativo? Não, melhor não pensar nisso, é uma via sem saída, uma dissonância irresolvível na lírica deste poema; é uma falta, uma lacuna, um espaço vazio sem fim. Talvez se eu fosse imortal eu pudesse resolver esse paradoxo, se eu tivesse todo o tempo do mundo, eventualmente eu me tornaria mundo, e o espaço vazio tentaria me encher de sua substância, e quem sabe eu me tornasse completo, pleno do vácuo

Estou boiando num mar vazio, num mar invisível, de noite. Não vejo a água, sequer consigo distinguir onde a água encosta no ar. Talvez eu sequer esteja na água, talvez eu esteja no ar ou sequer. Talvez eu esteja caindo, mas não há vento a sacudir meus cabelos e por lágrimas nos meus olhos. Eu não sinto nada, apenas vejo as próprias imagens alucinatórias que produzo na minha mente e sei que elas não existem. Sinto estar em uma simulação mal feita de o que seria uma vida. O que eu vou escolher alucinar em seguida? Que parte de mim eu desejo encenar? Que mundo eu desejo vivenciar, que corpo incarnar?

Arte? Criação? Ouço os violinos de Beethoven cintilando no meu ouvido; mas é isso algo que importa? Beethoven certamente morreu muito infeliz, ele certamente morreu insatisfeito, ele sequer podia ouvir a música que ele criava - certo, talvez a música que ele criasse em sua cabeça fosse muito melhor do que a que ele ouviria saindo de uma orquestra real, mas mesmo assim ele viveu uma vida muito limitada. Vivemos todos vidas muito limitadas, e muito cheias de culpas, e arrependimentos, e ansiedade, e limitações, e frustrações. Somos tão insignificantes criaturas, somos tão efêmeros até para nós mesmos. A consciência da morte é algo final, ela ofusca qualquer possibilidade. Escrever um livro? Para quê? A imortalidade da biblioteca do Congresso is not immortality at all. De que me adianta a glória? Napoleão não respira, não goza, não teme em seus quadros, em seus panos esvoaçantes de tinta seca de séculos

Será que eu serei a criatura cercada de volumes e mais volumes de folhas de papel costuradas uma atrás da outra, em uma casa de tijolos desconexos que deve tomar forma na minha mente, em uma cadeia de significações? Será que eu viverei para o imaginário concebido por uma vã filosofia? Será que eu gastarei os meus suspiros lendo em voz baixa noites a dentro, procurando sabe-se lá que... Eu morrerei, certamente morrerei, o que eu quero fazer antes de morrer? Será que é o que eu quero os panos esvoaçantes, a poeira acumulando no meu rosto de tinta, minha máscara mortuária

Tuesday, May 14, 2019

Façam fila no Everest

Engarrafamento no trajeto até o pico do Evereste em 22 de maio de 2019 Foto: Reprodução/ @Nimsdai Projeto Possible / AFP

Senti uma pequena traição ao meu espírito quando vi a imensa fila de gente para chegar ao topo do Everest, e, logo em seguida, um extremo senso de justiça sendo feita quando vi que a mesma fila causou a morte de oito pessoas. Não, não acho que tanta gente deve ousar chegar ao topo do mundo, acho que este se reserva apenas a alguns seletos campeões, a apenas a alguns bravios cavalheiros, e mesmo estes devem padecer enormidades, e quase morrer. Queria que um ou dois por ano lá chegassem. E por quê? Por que essa minha vontade da extrema seletividade de uma proeza física, de uma conquista do topo do mundo por gente que eu nem conheço, aliás topo do mundo este que eu mesmo nunca conheceria, e cuja conquista não me afeta - só que afeta, afeta muito, metaforicamente atinge meu peito lá no fundo. Como pode se vulgarizar tanto? Como podem mortais alçarem ao Olimpo? Como podem haver tantos?

O simbolismo em volta do alpinismo é o de superar obstáculos, e ver tanta gente no mundo chegando ao ponto mais difícil, superar o mais alto ponto, é como se muita gente estivesse zerando a Terra, alcançando o ponto mais extremo desta realidade que habito, é como se de repente o mundo estivesse se tornado tão povoado que as pessoas estão escorrendo por suas bordas. É uma sensação de desespero, especialmente porque eu não estou escorrendo pelas bordas, eu não estou respirando o ar alucinante das alturas rarefeitas. Não, estou eu aqui, cotidiano, pedestre, na minha vida de burocracias - provas, créditos, capítulos, artigos, deadlines, currículos, reputações, prêmios, aspirações, antidepressivos e menstruações.

Resta-me apenas a schadenfreude de ver que a ousadia não sai impune, e isso me serve como uma consolação ao meu recalque, mas apenas enquanto eu não posso tentar eu mesmo morrer na fila do Everest.