Sweet Disposition: um esboço em sete partes.
[Leitor, essa história surgiu de uma música que eu ouvi numa festa, cujo refrão de sete versos me cativou e eu soube que havia ali uma história; ei-la. Ouça, antes de continuar, a música "Sweet disposition" do Temper Trap, enquanto nosso protagonista prepara café. Quem sabe você mesmo não poderia preparar um café também?]
Parte 1: "a moment"
Cafeinado, ansioso e taquicárdico, Cravo foi dirigindo para o centro de sua cidade, descendo as colinas periféricas de seu bairro montanhoso, para onde cresceu o edema urbano, como uma pérola, em camadas cronológicas. Depois de muito tempo encontraria sua Rosa, no baixio do pequeno vale, o cascalho no meio da pérola.
De forma súbita partira numa longa viagem e agora regressava. “Que milagre é tudo isso. Se formos pensar no mundo de sete bilhões de pessoas como um sistema de sete bilhões de partículas, como é improvável que um par delas continue a interagir, continue a se encontrar no caos do mundo. Não, não, isso não acontece sem querer, precisamos escrever todas aquelas cartas, precisamos sincronizar nossos planos e precisamos ela pegar um trem e eu ir buscá-la. Precisamos de vontade, de esforço, energia mesmo”.
Desimpedido, acelerava seu carro por ruas vazias de um sábado de manhã, no rádio tocando “Ne me quitte pas”, Jacques Brel [ouça também, e as próximas], o ar das árvores de outono que começavam a perder as folhas já rubras como vento entrava pelas janelas abertas, ofendia seus olhos que se expremiam, alegrava seus cabelos que voavam. Vista de cima, a côncava cidadezinha outonal lembrava um cálice de vinho rosé. "Faz tanto tempo que não a vejo... Como será que está? Tanto tempo, aliás, que nem sei se a reconhecerei! Será que me reconhecerá? Tudo flui, tudo muda. Imagino se continuamos as mesmas pessoas que éramos antes, imagino se ainda existem as pessoas que se despediram há tanto tempo. Se aqueles dois morreram? e esses dois são apenas estranhos… Do que falaremos quando nos encontrarmos? Nossa, estou me sentindo como se estivesse me dirigindo para um primeiro encontro!"[“Strangers in the Night”, Frank Sinatra].
Estacionou seu carro em frente à velha estação de trem. Aquele prédio que fora pintado mês passado, como era pintado todo ano, enganava, parecia novo. Era antiquíssimo, nele já aportaram milhões e milhões de passageiros nos últimos duzentos anos de trilho. Antes a vapor, hoje chegavam no tiro de um trem bala, as viagens mais curtas traziam ainda mais gente. Em épocas mais sombrias, voara pelos ares numa explosão de bomba. Hoje estava ali de volta, como uma fênix, idêntico ao anterior. Mas era o mesmo prédio, o mesmo, ninguém na cidade que o viu destruído e reconstruído negava isso, ninguém chamava de "estação nova", nada disso. Era a mesma. Cravo subiu os breves degraus bicentenários (que na verdade tinham cinco décadas) e foi nadando contra a correnteza, entrando na galeria principal, cujas tributárias eram as várias plataformas que desaguavam córregos de pessoas turbilhonando naquele grande rio, uma multidão de faces inexpressivas, sonadas com o cinza de um desespero silencioso. No meio do silêncio que é o ruído indistinguível de muita gente para pouco espaço, procurava seu raiozinho, seu holofote de gente. A menina que brilhava no escuro! ele a veria na distância que cruza a noite de uma baía, como um pontinho lá longe a ser confundido com a luz de um navio.
No canto do olho pegou um brilho. Virou-se e lá estava Rosa [“Do you go up”, Khai]. Ela se aproximou sorrindo, caminhando aceleradamente, chegou quase correndo a seus braços, jogando sua malinha a seus pés e seu corpo a seu corpo. Com a tensão de um raio que rasga o ar, os quatro braços abraçaram os dois corpos como um nó cirúrgico, para nunca mais soltar. Silêncio, absoluto silêncio que só olhos fechados trazem. Os braços de Cravo ao redor do corpo de Rosa reconheceram os ângulos e as texturas, seu nariz reconheceu o mesmo perfume de sempre. Apertava-a com o desespero de quem quer, com a força dos braços, preservar o momento, garantir que ficará gravado a fogo em sua memória [“Enjoy the Silence”, Depeche Mode]. “Ah, sim! Disso eu lembro, desse corpo em meus braços, é tudo que queria e tudo que precisava! Cachos que fazem cócegas no meu pescoço, desse cheiro intoxicante de quem usa perfume demais. E se me lembro, continuo a ser o mesmo que era? Quem sou eu? Eu sou qualquer coisa que permanece, no meio das minhas mudanças algo que continua a achar encanto nessa pessoa que passa os dedinhos pelas minhas costas. E se encontro permanência neste retorno, deve haver uma continuidade, durante o tempo de ausência permanecemos existindo, assim como continuou existindo a estação em forma de entulho no pós-guerra e depois reconstruída. Sim, quem foi agora volta inteira e um pouco maior.” Lágrimas verteram.
- AAAAA - gritaram juntos, como a enxurrada que transborda por todos os lugares possíveis, até a voz. - AAAAAAA.
- Esse é um momento proustiano. Sinto, enquanto ele ainda dura, como um daqueles momentos de que tenho certeza que vou lembrar para sempre e ter nostalgia.
- Exatamente! - disse rindo - É bem um desses que a gente sabe que não vai esquecer. Tanto que quero até tirar uma foto, apesar de achar que fotos são para quem não tem boa memória, que devíamos focar no momento para lembrá-lo ao invés da distração de tirar uma foto… Mas como eu sei, tenho certeza que não vou me esquecer de agora, acho que posso me dar o luxo de me distrair. - e tiraram a foto.
- “That’s why, darling, it’s incredible
How someone so unforgettable
Thinks that I am unforgettable too” - [“Unforgettable”, Nat King Cole], agora era a vez dela de chorar.
- Sabe, eu vim no trem marcando as horas, quando chegou a faltar noventa minutos eu pensei “meu deus, falta menos do que um filme para eu chegar, para ver Cravo”. A pontualidade destes trens é impiedosa, eu sabia que estaria aqui em noventa minutos e passei noventa minutos nervosa, não achava sequer uma posição confortável na poltrona. Era felicidade por antecipação.
- Sei bem. Eu mal dormi hoje. - “Sim, por enquanto vencemos o caos do mundo, por enquanto estamos os dois aqui, por enquanto sou quem eu sou, entre o que esqueço e o que luto para lembrar - como a luta que se dá entre sedimentação e erosão; depois de muito tempo nasce uma rocha metamórfica, a identidade.” Cravo contemplava naquele momento, abraçado a Rosa, a paisagem de vários outros momentos confluentes, passados, e sentia um imenso alívio em ser esmagado de novo por aqueles braços familiares. O neuro-órgão de fazer memórias dele selecionava esses momentos de forma temática, é claro, momentos passados conversando com o momento presente, à semelhança da forma com que um curador escolhe quadros para montar uma exposição em seu museu, fazendo-os conversar, quadros e memórias, arte e vida. [“Supercut”, Lorde]
Ah, mas o tempo, o tempo não pára. Um dia vai acabar o Cravo e a Rosa, e a estação, e os trens e a humanidade. Mas enquanto não chega nosso tempo, continuamos nos amando, infinitamente dentro de sua duração.
[Roll credits: “What I Did for Love”, versão com Priscilla Lopez]
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