Wednesday, October 14, 2015

Sonhadores - para redação da Fuvest de 2010

Na infância, é comum brincar de “faz de conta”, ativa e coletivamente criar uma situação inusitada com a imaginação. Apesar de aparentemente se observar um decréscimo das fantasias à medida que crescemos, jamais deixamos de depender de uma imagem da realidade formada a partir da experiência. Jamais em contato com o mundo “em si”, mas o experimentando sensorialmente, nossa concepção da realidade é criada a partir de imagens situacionais, que frequentemente são inexatas.
         Na obra “Noites Brancas” de Fiódor Dostoiévski, o protagonista se apresenta como um sonhador, alguém que vive em seu próprio mundo imaginário. Por meio da imaginação, o jovem vê em situações cotidianas aquilo o que deseja ver no mundo. Assim, passeando pelas ruas de São Petersburgo, consegue ler a mente de pedestres, apaixonar-se por ideais de mulheres e conversar com edifícios. O conto ilustra como o indivíduo, em sua subjetividade, ao mesmo tempo cria e interpreta o seu mundo ao interagir com imagens, não com os objetos em si.
         Imaginamos invariavelmente uma realidade mais agradável. Constantemente fazemos planos de vida, sonhamos com sucessos e delícias. Artistas, ao elaborarem suas obras, externalizam seus anseios e opiniões, representações imagéticas de um mundo sonhado só por eles. Criar imagens sobre o que o cerca é uma necessidade do homem, em sua interação com o ambiente e em sua construção pessoal. O “sonhador” de Dostoiévski enunciou “involuntariamente acreditamos que em nossos sonhos incorpóreos há qualquer coisa de vivo e de palpável”. Temos o profundo desejo de que nossas imagens, ou sonhos, que temos sobre o mundo se concretizem. A esse sentimento chamamos de “esperança”.

         É inevitável que nossa interação com o mundo seja predominantemente imagética. Assim, ser humano é ser como um sonhador, que transita entre a fantasia e a realidade, criando e interpretando seu mundo da maneira que melhor lhe agradar.

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