Monday, November 23, 2015

Verklärte Nacht

é tarde da noite depois de muito rolar em minha cama, em vão, insone, levanto-me e sento, resignado, meio por irritação meio por meiossonho. Um arrepio brota do baixo de minhas costas nuas e se espalha pela minha pele como labaredas que sobem por meus poros e pêlos, no ar frio da noite. De algum lugar, subindo pelas paredes, o tiquetaque do relógio, constante metrônomo de melodia nenhuma, a devorar as horas que o meu sono se recusa e engolir, lentamente, arrastadamente, como um velho que de légua em légua percorre reinos e reinos... séculos.
mas lá fora chora uma garoa silenciosa, singela, tímida, quase que seca em sua raridade, sua indecisão, seu será? de longe distante quase como dos tímpanos de outrem que se vai, chegam-me os sons de outros seres, noturnos, apagados como os jornais vencidos que forram as calçadas eles caminham sem rumo nem voltando nem indo de lugar nenhum... como a garoa tímida que lhes aborrecem a franja. 
mas meus olhos, cansados dos semiescuro de meu quarto, procuram por qualquer coisa de vivo, qualquer sensualidade de sombra borrada, e acham o borrão de coisa nenhuma, de incerteza se viu-não-viu... Ou sonhei?
Pouso os pés no chão, pisotateio derrotado e acendo devagarzinho o abajour sem pressa... pego no papel e arranho o rouco grafite dessas linhas linhas burras, frescas como a remela que nasce dos meus cílios rebeldes, irritadiços, cadentes, azarados
lento, o Estômago acorda, caprichoso mimado, da latência distraída de jejuar, e resmunga, grita, chora por qualquer pão seco. Sou generoso! não me economizo com pão seco,, desço um pedaço de queijo perfumado sim, dourado como o dia que vem, mas muito mais deliçioso e gentil. desço logo pela garganta também a asperezza do meu café-amargo-de-cada-dia a sacudir-me a gastrite a esbofetear-me o ânimo como um capitalista a ralhar cos seus proletários "acordem formigas!"
Minhas correias polias engrenagens alavancas começam a acelerar girar girar. Quando dou por mim estou cumprimentando meus contidianos no trabalho, tão distraídos como eu lá fora a garoa começa a se recolher como cortina prometendo abertura de peça que os atores esqueceram-se, e a platéia despercebida continua a resmungar suas pequenices, mal notam quando entra tímida uma menina... Não logo se vai, deve ter errado a entrada.

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